
Bioconstrução: adobe, taipa, pau a pique, reboco e tinta de terra · 7 capítulos
Construir com a terra
Conheça a terra e construa com ela: adobe, solo-cimento, taipa de pilão, pau a pique, tinta de terra e fogão sem fumaça
Sobre o guia
Um curso sobre construir com a terra do próprio lugar: a tradição de quatro séculos das casas e igrejas de taipa, como testar a terra com o vidro e com as mãos, o adobe e o tijolo de solo-cimento, a taipa de pilão e o pau a pique sem frestas para o barbeiro, a bota e o chapéu que protegem a parede, o reboco e a tinta de terra do projeto Cores da Terra, o fogão a lenha sem fumaça da UFV e o forno de barro, e o mutirão como escola.
Por que construir com terra
Voz gerada por IA.
Durante séculos, boa parte das casas, igrejas e fortes do Brasil foi erguida com a terra do próprio lugar. Depois vieram o tijolo queimado e o cimento, e a casa de barro passou a ser vista como coisa de pobre. Hoje, a terra crua volta a ser estudada e usada, por arquitetos, universidades e mutirões, como um jeito de construir mais barato, mais fresco e com menos impacto. Este curso é sobre essa volta. Neste capítulo, um pouco de história e as razões para construir com terra.
Uma tradição de quatro séculos
Segundo uma reportagem do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia, o Confea, técnicas como a taipa e o adobe foram trazidas ao Brasil pelos portugueses na colonização, e as casas mais sofisticadas da época, além de igrejas e fortificações, foram feitas com o próprio solo da região. Em São Paulo, a Igreja do Convento de São Francisco, inaugurada pelos frades franciscanos em 1647, foi construída em taipa de pilão e ainda está de pé: em 2024, o conjunto recebeu o tombamento definitivo do Iphan como patrimônio cultural brasileiro.
Com a industrialização, o tijolo cozido e o cimento tomaram o lugar da terra crua, que ficou para as casas do interior e das famílias mais pobres. Daí veio o preconceito que ainda existe. Mas uma casa de terra bem feita dura séculos; o que faz uma casa durar é a técnica, não o material.

Por que construir com terra
A primeira razão é que a matéria-prima já está no lugar, muitas vezes na própria terra tirada para a fundação. A segunda é que a terra crua não vai ao forno: não queima lenha nem carvão e quase não precisa de transporte. Na mesma reportagem do Confea, o arquiteto Renato Savalli lembra que a terra crua usa muito pouco cimento e aço, e que as obras com terra têm bom desempenho em conforto térmico e acústico, são resistentes, duráveis e, no fim da vida útil, recicláveis.
O conforto é fácil de sentir. Uma parede grossa de terra demora a esquentar com o sol da tarde e demora a esfriar de noite. Por isso, dentro de uma casa de terra o calor do dia chega amortecido. A terra também troca umidade com o ar: absorve quando o ar está úmido e devolve quando está seco.

O que a terra pede
A terra também tem limites. Ela não gosta de água: uma parede de barro que fica molhada por muito tempo amolece e se desfaz. Por isso as casas de terra têm fundação alta e beiral largo, como você verá no capítulo 5. Também pede uma terra adequada, testada antes, e técnica bem feita. Neste curso você vai aprender o básico de cada técnica. Para construir uma casa inteira, procure um curso prático e um profissional que conheça construção com terra.
Você sabia?
Em regiões com pouca pedra, como o planalto de São Paulo, a taipa de pilão foi a técnica mais usada nos primeiros séculos da colonização. Os raros exemplares do século XVII que chegaram até hoje, como a Capela de São Miguel Paulista, são de taipa.
Na prática
Comece a reparar na terra das construções:
- Procure na sua cidade uma casa, igreja ou muro antigo feito de taipa ou adobe.
- Observe a espessura das paredes, a altura da fundação e o tamanho do beiral.
- Anote a cor da terra do seu quintal ou de um barranco perto de casa.
Fontes
- Aragão, A. (Assessoria de Comunicação do Confea). Técnicas construtivas antigas ajudam a combater a escassez de matéria-prima. Confea, 2009.
- Agência Gov / Iphan. Conjunto arquitetônico de São Francisco (SP) recebe tombamento definitivo do Iphan. agenciagov.ebc.com.br, 2024.
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1 de 3Como foi construída a Igreja do Convento de São Francisco, em São Paulo?
Conhecer a terra
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Antes de qualquer tijolo, é preciso conhecer a terra. Cada terra tem uma mistura própria de grãos grandes e pequenos, e é essa mistura que decide se ela serve para adobe, taipa, reboco ou nada disso. Como alerta o professor Fernando Costa, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em reportagem do Confea, não é qualquer terra que serve: primeiro é preciso testar se a terra é boa.
Areia, silte e argila
A terra é feita de grãos de tamanhos diferentes. A areia tem grãos que dá para sentir nos dedos e dá estrutura à parede. O silte é um pó fino, parecido com farinha. E a argila tem grãos tão pequenos que não se veem: molhada, ela gruda e funciona como a cola que segura os grãos de areia juntos. Terra com argila demais encolhe e racha ao secar. Terra com areia demais esfarela. A boa terra de construir fica no meio do caminho: para o tijolo de solo-cimento, o guia da Universidade Federal do Vale do São Francisco, a Univasf, indica uma composição perto de 70% de areia e 30% de argila.
A camada de cima do solo, escura e cheia de matéria orgânica, não serve para construir: é a terra viva, que fica para a horta. A terra de construção vem de baixo, do barranco ou da escavação da fundação. Segundo o Manual do Arquiteto Descalço, de Johann van Lengen, citado pelo Confea, as terras brancas e arenosas e as negras e gordurosas não servem para adobe; as vermelhas e castanhas servem, e as amarelo-claras são as melhores.
O teste do vidro
O teste mais conhecido é o do vidro. Encha um pote de vidro reto até um terço com a terra peneirada, complete com água, junte uma pitada de sal, tampe e sacuda bem. Deixe parado por um dia. A areia desce primeiro e forma a camada de baixo; por cima vem o silte; e a argila é a última a assentar. Medindo a altura de cada camada, você tem uma ideia da composição da sua terra.

Os testes de mão
Na obra, os construtores usam testes rápidos, feitos com as mãos. O guia da Univasf descreve três. No teste do cordão, você junta água a uma porção de terra seca e rola um cordão de uns 3 milímetros, que deve começar a quebrar nessa espessura. No teste da bola, com a mesma terra, faz uma bola e a esmaga entre o polegar e o indicador. E no teste da fita, faz um cilindro da grossura de um cigarro e o achata até formar uma fita de 3 a 6 milímetros: serve a terra que formar fita de no máximo 5 a 10 centímetros antes de se partir.

Você sabia?
Se a terra tiver argila demais, dá para corrigir misturando areia; se tiver areia demais, junta-se uma terra mais argilosa. Os construtores fazem tijolinhos de teste com misturas diferentes e escolhem o que secou sem rachar.
Na prática
Teste a terra perto de você:
- Pegue terra de um barranco, abaixo da camada escura de cima.
- Faça o teste do vidro e meça as camadas no dia seguinte.
- Faça o teste da fita e anote até que comprimento ela chegou antes de quebrar.
Fontes
- Aragão, A. (Assessoria de Comunicação do Confea). Técnicas construtivas antigas ajudam a combater a escassez de matéria-prima. Confea, 2009.
- Kursancew, F.; Menezes, F. Guia para produção de tijolo ecológico e pigmentação. Univasf, 2023.
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1 de 3No teste do vidro, qual camada assenta primeiro, no fundo?
Adobe e solo-cimento
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O tijolo é a forma mais fácil de começar a construir com terra: dá para fazer um de cada vez, testar, secar e guardar até ter o suficiente. Neste capítulo você vai conhecer dois tijolos que não vão ao forno: o adobe, de terra crua seca ao sol, e o tijolo de solo-cimento, prensado com um pouco de cimento.
O adobe
O adobe é um tijolo de terra crua moldado em fôrmas de madeira e seco ao sol, sem precisar de cozimento. A massa é feita de terra e água, e muitas receitas juntam fibras, como palha picada, que ajudam o tijolo a não rachar ao secar. Uma dica antiga, citada em reportagem do Confea, é misturar esterco de cavalo ou de burro à massa: ele aumenta a resistência do adobe à umidade e ao desgaste.

A massa é pisada com os pés ou misturada com a enxada até ficar homogênea, como um barro de modelar. Depois é jogada com força na fôrma molhada, para preencher os cantos, e a fôrma é levantada com cuidado. O tijolo seca devagar, primeiro na sombra, para não rachar, e depois é virado de lado para secar por igual. Em poucas semanas, está pronto. Desde 2020, o Brasil tem uma norma técnica para o adobe, a ABNT NBR 16814, com os requisitos e os ensaios para o tijolo e a alvenaria.
O tijolo de solo-cimento
O tijolo de solo-cimento, também chamado de tijolo ecológico, é uma evolução do adobe: a terra recebe um pouco de cimento e é prensada numa máquina, manual ou mecânica. O guia da Univasf ensina a receita: 10 partes de solo para 1 de cimento, misturados a seco. Depois se junta água até a umidade ótima: apertada na mão, a massa forma um bolo que não suja a mão e, partido ao meio, quebra sem esfarelar.

A prensagem é feita na sombra, porque a massa no sol perde água depressa e o tijolo fica fraco. Depois vem a cura: a partir de 6 horas depois da prensa e até o sétimo dia, o tijolo é mantido úmido. Com 14 dias, está pronto para usar. Os tijolos têm encaixes e furos que permitem levantar paredes com pouca argamassa e passar por dentro deles canos e ferros, e o acabamento é tão regular que a parede pode ficar sem reboco.
Qual escolher
O adobe usa só terra, água e fibra, e pode ser feito com as mãos e uma fôrma de madeira. Precisa de mais proteção contra a chuva. O solo-cimento é mais resistente à água e mais regular, mas usa cimento e precisa de uma prensa. Muitas obras combinam os dois: solo-cimento na parte de baixo das paredes, mais exposta, e adobe no resto.
Você sabia?
Segundo o guia da Univasf, como o tijolo de solo-cimento não vai ao forno, a cada mil tijolos se evita a queima de cinco árvores, a lenha que seria usada para cozinhar os tijolos comuns.
Na prática
Faça seus primeiros tijolos:
- Monte uma fôrma de madeira sem fundo, do tamanho de um tijolo grande.
- Faça cinco adobes de teste com misturas diferentes de terra, areia e palha.
- Deixe secar na sombra e veja qual rachou menos e qual ficou mais firme.
Fontes
- Aragão, A. (Assessoria de Comunicação do Confea). Técnicas construtivas antigas ajudam a combater a escassez de matéria-prima. Confea, 2009.
- Kursancew, F.; Menezes, F. Guia para produção de tijolo ecológico e pigmentação. Univasf, 2023.
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1 de 3Qual a proporção do tijolo de solo-cimento no guia da Univasf?
Taipa de pilão e pau a pique
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Além dos tijolos, a terra pode virar parede inteira, de uma vez. Neste capítulo você vai conhecer duas técnicas antigas e muito brasileiras: a taipa de pilão, a parede socada das igrejas coloniais, e o pau a pique, ou taipa de mão, a parede de barro e madeira que ainda se vê em muitas roças.
Taipa de pilão
Na taipa de pilão, a terra úmida é colocada em camadas dentro de uma fôrma de madeira, chamada taipal, e socada com um pilão até ficar compacta. Quando a camada está firme, vem a próxima, e a fôrma sobe com a parede. Segundo a reportagem do Confea, é uma das técnicas de construção com terra crua mais antigas do mundo. A mistura ideal citada é de 30% de argila e 70% de areia, às vezes com um estabilizante como cal ou cimento.

A umidade certa é o segredo. A reportagem ensina um teste: apertar um punhado da mistura e deixá-lo cair de um metro de altura; ele deve se partir em alguns pedaços. Terra molhada demais não compacta, e seca demais não liga. As paredes de taipa são grossas, muitas vezes com mais de meio metro, e por isso muito estáveis e frescas. A Igreja do Convento de São Francisco, em São Paulo, de 1647, foi feita assim: segundo o Iphan, com terra compactada em formas de madeira, com o auxílio de um pilão.
Pau a pique
No pau a pique, também chamado de taipa de mão ou de sopapo, primeiro se monta uma trama: paus verticais fincados na estrutura e varas ou bambus amarrados na horizontal, como uma grade. Depois, o barro, misturado com palha, é jogado com as mãos dos dois lados da trama ao mesmo tempo, preenchendo tudo. É uma técnica leve, rápida, ótima para mutirão, e que usa materiais do próprio lugar.

O cuidado com o barbeiro
O pau a pique carrega uma lembrança triste no Brasil. Os barbeiros, insetos que transmitem a doença de Chagas, fazem seus ninhos principalmente nas rachaduras das paredes de barro das casas de pau a pique, como lembra um artigo dos Arquivos Brasileiros de Cardiologia. O problema não é o barro: é a parede rachada e sem reboco. A Agência Senado orienta os moradores de áreas rurais a cuidar do reboco e do fechamento de rachaduras e frestas, além de usar telas e manter galinheiros e paióis longe da casa. Um pau a pique bem feito, com barro de boa mistura e reboco caprichado, é liso e não deixa frestas.
Você sabia?
Segundo o Confea, a terra da taipa de pilão pode receber estabilizantes para resistir melhor à água, como cal, cimento ou até baba de cupim sintética.
Na prática
Experimente as duas técnicas em pequeno:
- Faça o teste da queda: aperte um punhado de terra úmida e deixe cair de um metro.
- Soque terra em camadas dentro de uma caixa de madeira sem fundo, com um pedaço de pau.
- Monte um quadro de varas e preencha com barro e palha, dos dois lados.
Fontes
- Aragão, A. (Assessoria de Comunicação do Confea). Técnicas construtivas antigas ajudam a combater a escassez de matéria-prima. Confea, 2009.
- Agência Gov / Iphan. Conjunto arquitetônico de São Francisco (SP) recebe tombamento definitivo do Iphan. agenciagov.ebc.com.br, 2024.
- Arquivos Brasileiros de Cardiologia. A doença de Chagas: seria o barbeiro o único culpado?. Arq. Bras. Cardiol. (PMC8291899), 2021.
- Agência Senado. Doença de Chagas: a doença e a forma de transmissão (Especial Cidadania). senado.leg.br, s.d..
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1 de 3O que é o taipal?
Bota, chapéu e acabamento
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A parede de terra tem um inimigo: a água. Chuva batendo direto, umidade subindo do chão e água escorrendo pela base são o que desmancha uma casa de barro. Neste capítulo você vai conhecer a regra de ouro da construção com terra, a bota e o chapéu, e os acabamentos que protegem e embelezam a parede: o reboco e a tinta de terra.
Bota e chapéu
Os bioconstrutores resumem a proteção da casa de terra em duas imagens. A bota é a fundação alta, de pedra, concreto ou tijolo queimado, que levanta a parede de terra acima do chão e dos respingos da chuva. Assim a umidade do solo não sobe pela parede. O chapéu é o telhado com beiral largo, que joga a água da chuva longe das paredes. Com bota e chapéu, a parede de terra fica seca e dura gerações.

O reboco
O reboco protege a parede do desgaste, fecha as frestas e deixa a superfície lisa. Na casa de terra, o melhor reboco é aquele que deixa a parede respirar: reboco de terra, areia e fibra, ou de terra com cal. O reboco de cimento, duro e impermeável, costuma descolar da parede de barro e prender umidade por trás. O reboco de terra é aplicado em camadas finas, com a parede molhada antes, e alisado com a desempenadeira. Como você viu no capítulo anterior, um reboco bem feito, sem rachaduras, é também uma proteção contra o barbeiro.
Tinta de terra
Para pintar, a terra também serve. O projeto Cores da Terra, criado na Universidade Federal de Viçosa e espalhado pelo Espírito Santo e outros estados, ensina a fazer tinta com terra, água e cola branca. A receita do folder de 2012 usa 8 quilos de terra argilosa seca e peneirada, deixada de molho na água por pelo menos 5 horas, coada duas vezes em peneira fina e misturada a 4 quilos de cola branca. Rende cerca de 18 litros, que pintam de 50 a 70 metros quadrados de parede.

Cada terra dá uma cor: as vermelhas, as amarelas, as brancas e as cinzentas. Para dentro de casa, o folder indica só 3 quilos de cola. A tinta aplicada com rolo fica lisa; com brocha e sem coar, fica texturizada. Um cuidado: a tinta de terra não adere sobre cal, que precisa ser retirada antes. Bem fechada em lata ou balde, a tinta dura cerca de um ano.
Você sabia?
Segundo o folder do projeto, a tinta Cores da Terra pode ser usada nas paredes externas e internas de casas e construções rurais, e também no artesanato, em peças de madeira, argila e fibras naturais.
Na prática
Faça tinta de terra em pequena quantidade:
- Junte duas ou três terras de cores diferentes, secas e peneiradas.
- Prepare meia receita de uma delas, respeitando o molho de 5 horas e a peneira fina.
- Pinte um pedaço de muro ou uma tábua e acompanhe como a cor fica depois de seca.
Fontes
- Projeto Cores da Terra (UFV / Incaper). Folder Cores da Terra. Fundação Banco do Brasil, banco de tecnologias sociais, 2012.
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1 de 3Na casa de terra, o que é o chapéu?
Pequenas obras: fogão e forno
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Ninguém precisa começar pela casa. As melhores escolas da bioconstrução são as obras pequenas: um fogão, um forno, um banco de jardim. Elas usam pouco material, ficam prontas em poucos dias e ensinam a mexer com a terra. Neste capítulo, duas obras muito brasileiras: o fogão a lenha sem fumaça e o forno de barro.
O fogão a lenha que não enfumaça a casa
O fogão a lenha é parte da vida rural brasileira. Segundo uma cartilha da Universidade Federal de Viçosa, em 1980, 96,9% dos fogões domésticos da zona rural de Minas Gerais eram a lenha. Ele tem muitas vantagens, como a facilidade de conseguir lenha, aquecer a casa e o sabor da comida. Mas os fogões mal construídos enchem a cozinha de fumaça, gastam muita lenha e racham.
Para resolver isso, a UFV desenvolveu o projeto do fogão a lenha sem fumaça. A fornalha é tampada, e o ar entra só por baixo, pela grelha e pelo cinzeiro, controlado por uma portinhola. Os gases quentes da queima passam em volta da caixa do forno, cozinhando, e saem pela chaminé. Como os gases quentes são mais leves que o ar, sobem pela chaminé e puxam ar novo pela grelha, numa corrente contínua. Resultado: a lenha queima por inteiro, o fogão esquenta mais rápido e a fumaça não volta para a cozinha.

A fumaça dentro de casa não é só incômodo: respirar fumaça todo dia faz mal aos pulmões, principalmente das mulheres e crianças que ficam mais tempo na cozinha. Uma chaminé que puxa bem é uma questão de saúde. O mesmo princípio está nos fogões de foguete, ou rocket stoves, com uma câmara de queima isolada que queima a lenha quase sem fumaça.
O forno de barro
O forno de barro, em forma de cúpula, é outra obra ótima para começar. A base é uma mesa de pedra, tijolo ou adobe, na altura da cintura, com um enchimento isolante, que pode ser de garrafas de vidro deitadas na areia ou de cacos de cerâmica. Em cima vai o piso do forno, de tijolos maciços. A cúpula é moldada com barro, areia e palha sobre um molde de areia úmida, retirado depois que o barro firma. Por fim vem uma camada isolante, de barro com bastante palha, e um reboco.
O forno precisa secar devagar, por vários dias, antes de receber os primeiros fogos, que devem ser pequenos. E, como toda obra de terra, precisa de chapéu: um telhadinho que proteja a cúpula da chuva.
Você sabia?
No fogão da UFV, uma chapa de ferro dobrada em L, ao lado do forno, impede que os gases saiam direto da fornalha para a chaminé. Por ser de ferro, ela esquenta rápido e ajuda a chaminé a começar a puxar logo que o fogo acende.
Na prática
Escolha sua primeira obra de terra:
- Liste três obras pequenas que fariam diferença na sua casa: forno, fogão, banco, canteiro, muro.
- Escolha uma e o lugar onde ela ficaria protegida da chuva.
- Calcule os materiais e convide alguém para fazer junto.
Fontes
- Tinôco, I. F. F.; Paula, M. O. Fogão a lenha sem fumaça. Universidade Federal de Viçosa, Departamento de Engenharia Agrícola, 2001.
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1 de 3No fogão sem fumaça da UFV, por onde entra o ar da queima?
Mutirão e o caminho seguro
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A bioconstrução se aprende fazendo, e quase sempre fazendo junto. Neste capítulo, o mutirão, o caminho seguro do primeiro tijolo até a casa, e os cuidados que fazem a construção com terra durar.
O mutirão
Muitas das casas de terra do Brasil foram levantadas em mutirão, com a família, os vizinhos e os amigos. Na bioconstrução, o mutirão continua sendo a principal escola: em um fim de semana se aprende a pisar a massa, encher a fôrma, socar a taipa e jogar o barro no pau a pique. Muitos grupos de permacultura e ecovilas organizam mutirões abertos, em que quem quer aprender ajuda a obra de alguém e leva o conhecimento para casa. Na reportagem do Confea, os profissionais lembram que a difusão das técnicas tem sido feita sobretudo por organizações não governamentais dedicadas à ecologia, e que as universidades ainda tratam o tema de forma superficial.
Um caminho seguro
Comece por uma obra pequena, como as do capítulo anterior: um banco, um forno, um muro de jardim, um galinheiro. Ela mostra como a sua terra se comporta, como seca, onde racha. Teste sempre a terra antes de cada obra, como você viu no capítulo 2. E, para uma casa, procure um projeto feito por um profissional que conheça construção com terra: a estrutura, a fundação e o telhado precisam ser calculados para o tamanho da casa, o tipo de solo e o clima do lugar.

A lei e a norma
Uma dificuldade antiga era a falta de normas técnicas para construção com terra. Isso começou a mudar: desde 2020, o adobe tem uma norma da ABNT, a NBR 16814, que trata da produção do tijolo, da execução da alvenaria e dos ensaios. O tijolo de solo-cimento também tem normas próprias, como a que o guia da Univasf cita para a cura. Antes de construir na cidade, procure a prefeitura para saber o que o código de obras exige. Na zona rural, as regras costumam ser mais simples, mas a segurança da estrutura é a mesma.
Cuidar da casa de terra
Uma casa de terra pede manutenção, como qualquer casa. Confira as calhas e o beiral antes das chuvas. Refaça o reboco onde ele trincar, e feche logo qualquer fresta. Mantenha o pé das paredes seco, sem plantas encostadas nem terra amontoada contra a base. Com bota, chapéu e um olho atento, a casa de terra atravessa gerações, como as igrejas de taipa que estão de pé há quase quatro séculos.
Você sabia?
Na reportagem do Confea, o arquiteto Renato Savalli defende usar todas as estratégias possíveis contra a crise ambiental, da energia solar à construção com terra, sem preconceitos, desde que o resultado esperado seja atingido.
Na prática
Dê o próximo passo:
- Procure um mutirão de bioconstrução perto de você, em grupos de permacultura, ecovilas ou universidades.
- Faça a sua primeira obra pequena com a terra que você testou.
- Se pensa numa casa, procure a prefeitura e um profissional que conheça construção com terra.
Fontes
- Aragão, A. (Assessoria de Comunicação do Confea). Técnicas construtivas antigas ajudam a combater a escassez de matéria-prima. Confea, 2009.
- Kursancew, F.; Menezes, F. Guia para produção de tijolo ecológico e pigmentação. Univasf, 2023.
Teste rápido
1 de 3Qual o jeito mais indicado de começar na bioconstrução?
Leia no app e ganhe folhas
No app, cada capítulo concluído vira folhas no seu jardim, e você pode ouvir tudo em áudio.
