
Água em casa: economizar, colher a chuva e tratar o esgoto com plantas · 7 capítulos
A água que passa pela casa
Siga a água da casa: rega sem desperdício, chuva no telhado, cisterna, águas cinzas, fossa ecológica e jardim de chuva
Sobre o guia
Um curso sobre a água que passa pela casa: as quatro águas e quanto usamos de cada uma, a rega que faz cada litro render e a irrigação por potes de barro, a conta da chuva no telhado e a cisterna de placas do Semiárido, o tratamento das águas cinzas no círculo de bananeiras e no jardim filtrante da Embrapa, a fossa séptica biodigestora e a bacia de evapotranspiração para o esgoto do vaso, e o jardim de chuva, que faz o quintal beber a chuva.
As quatro águas da casa
Voz gerada por IA.
Abrimos a torneira e a água aparece; puxamos a descarga e ela some. Quase nunca pensamos de onde ela vem nem para onde vai. Neste curso você vai seguir a água que passa pela sua casa, da chuva no telhado ao esgoto do banheiro, e descobrir como cada uma delas pode ser economizada, guardada, reaproveitada ou tratada perto de onde nasce. É assim que uma casa começa a fechar ciclos, como você viu no curso Um lugar que se sustenta.
Quanta água a gente usa
Segundo um estudo do Instituto Trata Brasil com dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento, o consumo esperado no Brasil em 2023 foi de cerca de 175 litros por pessoa por dia, contando a água que se perde nos canos da distribuição. Para comparar: a Embrapa Semiárido calcula que uma pessoa precisa de 14 a 28 litros por dia só para beber e cozinhar. A maior parte do que usamos vai para banho, descarga, limpeza e lavagem de roupa, usos que não precisam de água potável.

As quatro águas da casa
Para pensar melhor, separe a água da casa em quatro. A água tratada chega pela rede ou pelo poço e é a única que serve para beber e cozinhar. A água da chuva cai de graça no telhado e pode ser guardada para regar, limpar e dar descarga. A água cinza é a que sai da pia, do chuveiro, do tanque e da máquina de lavar; segundo a cartilha da Embrapa com o Senar de São Paulo, ela corresponde a cerca de 80% do esgoto de uma casa. E a água negra é a do vaso sanitário, a que mais transmite doenças e que precisa de tratamento fechado.

Essa separação muda tudo. Quando a água cinza e a negra vão juntas para o mesmo cano, viram um esgoto difícil de tratar. Separadas, a cinza pode ser tratada de forma simples, com plantas, e a negra vai para um sistema próprio, fechado e seguro. E a água da chuva, que hoje escorre pelo quintal e pela rua, pode encher uma cisterna.
Por onde começar
Antes de qualquer obra, vale conhecer o caminho da água na sua casa. Descubra para onde vai cada cano: se a casa está ligada à rede de esgoto, se tem fossa, se a água da pia e do chuveiro vai para o mesmo lugar que a do vaso. Olhe o telhado e as calhas, e veja para onde escorre a chuva. Confira a conta de água dos últimos meses para saber quanto a família usa. Com esse mapa nas mãos, os próximos capítulos vão mostrar o que fazer com cada água.
Você sabia?
Segundo a UN-Water, citada na cartilha da Embrapa e do Senar, só 2,5% da água do planeta é doce, e a maior parte dela está presa nas geleiras. Apenas cerca de 0,5% de toda a água da Terra está disponível em rios, lagos, chuvas e aquíferos.
Na prática
Faça o mapa da água da sua casa:
- Veja na conta de água quantos litros a família usa por mês e divida pelo número de pessoas e por 30.
- Descubra para onde vai cada cano: pia, chuveiro, tanque, máquina e vaso.
- Observe a chuva: por onde ela escorre do telhado e do quintal.
Fontes
- Instituto Trata Brasil; Ex Ante Consultoria Econômica. Demanda futura por água em 2050: desafios da eficiência e das mudanças climáticas (release). tratabrasil.org.br, 2025.
- Senar-SP; Embrapa Instrumentação. Jardim filtrante no tratamento do esgoto. Senar-SP / Embrapa Instrumentação, 2025.
- Brito, L. T. L.; Porto, E. R. Cisterna rural: água para o consumo humano. Embrapa Semiárido, 1999.
Teste rápido
1 de 3Quanto da água de esgoto de uma casa é água cinza?
Água na horta, sem desperdício
Voz gerada por IA.
A horta é, quase sempre, o lugar da casa onde mais se desperdiça água, e também onde é mais fácil economizar. Regar bem não é regar muito: é levar a água até as raízes, na hora certa, e fazer com que ela fique na terra. Neste capítulo, cinco hábitos e uma técnica antiga que a Embrapa estudou no Semiárido: a irrigação por potes de barro.
Cinco hábitos que fazem a água render
O primeiro é regar o solo, não as folhas: a água vai direto para as raízes, e as folhas molhadas por muito tempo adoecem mais. O segundo é regar cedo ou no fim da tarde, porque no sol forte boa parte evapora antes de entrar na terra. O terceiro, e talvez o mais importante, é cobrir o solo com palha, folhas secas ou capim: a terra coberta perde muito menos água e fica mais fresca. O quarto é usar sistemas que soltam a água devagar, junto da raiz, como o gotejamento ou os potes de barro. E o quinto é conferir com o dedo antes de regar: terra úmida a dois dedos de fundo ainda não pede água.

O pote que rega sozinho
A irrigação por potes de barro é conhecida há milhares de anos em vários povos. Um pote de barro cozido, sem verniz, é enterrado até o gargalo no meio do canteiro e cheio de água. Como o barro é poroso, a água atravessa devagar a parede do pote e umedece a terra em volta. As raízes crescem em direção ao pote e bebem conforme precisam. Uma tampa no gargalo evita a evaporação e impede que o mosquito da dengue use o pote como criadouro.

Em 1982, pesquisadores da Embrapa Semiárido, em Petrolina, descreveram o método e fizeram os primeiros testes. Comparado com a irrigação por sulcos, o sistema de potes usou de 22 a quase 25 vezes menos água no cultivo de melancia, melão e feijão-caupi. Mais recentemente, a Embrapa Amazônia Oriental retomou a técnica no projeto Irrigapote, que liga potes enterrados a reservatórios de água da chuva.
Em casa, o pote funciona muito bem para plantas que ficam muito tempo no mesmo lugar, como abóbora, tomate, pimenta e frutíferas novas, e para canteiros pequenos. Um pote médio atende as plantas num raio de uns dois palmos. A frequência para encher depende do calor, do tamanho do pote e da terra: comece conferindo a cada dois ou três dias.
Você sabia?
Os potes estudados pela Embrapa em 1982 eram feitos à mão por oleiros da região, e por isso a vazão variava de um pote para outro: dependia da espessura da parede e do cozimento do barro.
Na prática
Faça a água da horta render:
- Cubra o solo de um canteiro ou vaso com palha ou folhas secas.
- Enterre um pote ou vaso de barro sem verniz com o furo do fundo tampado, encha de água e cubra a boca.
- Anote de quantos em quantos dias o pote precisa ser enchido.
Fontes
- Silva, A. S.; Magalhães, A. A.; Santos, E. D.; Morgado, L. B. Irrigação por potes de barro: I. Descrição do método e testes preliminares. Embrapa Semiárido (CPATSA), Boletim de Pesquisa 10, 1982.
Teste rápido
1 de 3Como funciona a irrigação por pote de barro?
A chuva do telhado
Voz gerada por IA.
Todo telhado é uma área de captação de água. Quando chove, a água escorre pelas telhas e, quase sempre, vai embora pela rua. Guardada, ela pode regar a horta, lavar o quintal e dar descarga durante semanas. Neste capítulo você vai aprender a calcular quanto o seu telhado colhe e a guardar essa água com segurança.
A conta da chuva
A medida de chuva é o milímetro, e a conversão é simples. Como lembra a Embrapa Semiárido, 10 milímetros de chuva correspondem a 10 litros de água por metro quadrado. Ou seja: cada milímetro que cai num metro quadrado de telhado vale um litro. Um telhado de 50 metros quadrados, numa chuva de 20 milímetros, recebe cerca de mil litros. Parte se perde na calha, na evaporação e no descarte das primeiras águas, mas o volume impressiona.

Para saber quanto o seu telhado colhe num ano, multiplique a área do telhado, medida no chão, pela chuva anual da sua cidade, que você encontra nas normais climáticas do Inmet. Em boa parte do Brasil, chove mais de mil milímetros por ano: um telhado de 50 metros quadrados recebe dezenas de milhares de litros. A questão não é se há água, mas onde guardar e como usar.
O caminho da água
A água do telhado é boa para muitos usos, mas chega carregando o que estava nas telhas: poeira, folhas, fezes de passarinho. Por isso, o primeiro cuidado é manter o telhado e as calhas limpos. O segundo é o descarte das primeiras chuvas: a cartilha da Articulação Semiárido Brasileiro orienta que a água das primeiras chuvas não vá direto para a cisterna, porque pode conter a sujeira dos telhados. Existem desviadores simples, feitos com cano, que guardam os primeiros litros de cada chuva e deixam passar o resto.

Depois, a água precisa de um reservatório fechado, escuro e sem frestas. Água parada e aberta é criadouro do mosquito da dengue, e luz faz crescer limo. Coloque tela na entrada e no ladrão, a saída por onde escapa o excesso. E retire a água por uma torneira ou bomba, sem mergulhar baldes e mãos no reservatório.
Para que usar
Nas cidades, a água de chuva guardada em casa costuma ir para usos que não precisam de água potável: regar a horta e o jardim, lavar quintal e calçada, lavar roupa e dar descarga. A descarga, aliás, é um dos maiores gastos da casa. Para beber, a água da chuva precisa de cuidados muito maiores, como você vai ver no próximo capítulo.
Você sabia?
Uma chuva de 20 milímetros num telhado de 50 metros quadrados quase enche uma caixa d'água de mil litros, descontadas as perdas. Muitas famílias começam assim, com uma caixa só, ligada a uma calha.
Na prática
Calcule a chuva do seu telhado:
- Meça a área do telhado pelo chão: comprimento vezes largura da casa.
- Procure a chuva anual da sua cidade e multiplique pela área.
- Escolha um uso para essa água e onde caberia um reservatório fechado.
Fontes
- Brito, L. T. L.; Porto, E. R. Cisterna rural: água para o consumo humano. Embrapa Semiárido, 1999.
- Articulação Semiárido Brasileiro (ASA). Cisterna de placas: passo a passo da construção. asabrasil.org.br, 2021.
Teste rápido
1 de 3Quantos litros um telhado de 50 m² colhe numa chuva de 20 mm?
A cisterna
Voz gerada por IA.
No Semiárido brasileiro, a cisterna mudou a vida de milhares de famílias. Você já conheceu a cisterna de placas no curso Um lugar que se sustenta. Neste capítulo você vai ver de perto como ela é feita, por que funciona e os cuidados que mantêm a água guardada limpa durante a seca.
Chuva irregular, não falta de chuva
A Embrapa Semiárido explica que a instabilidade do clima no Semiárido vem mais da irregularidade das chuvas do que da sua escassez. Chove, em média, de 250 a 800 milímetros por ano, concentrados em três a cinco meses. No resto do ano, a seca. Os solos rasos e pedregosos seguram pouca água, e a chuva escorre. A solução é guardar a água no período das chuvas para usar nos meses secos, que no Semiárido duram em média oito meses.
A cisterna, conhecida por diferentes povos há milênios, faz exatamente isso. Segundo a Embrapa, ela é formada por três partes: a área de captação, normalmente o telhado; um sistema de filtragem; e o tanque de armazenamento. A Embrapa estuda cisternas desde o fim dos anos 1970 e testou vários materiais, de lonas plásticas a placas pré-moldadas.
A cisterna de placas
O modelo que se espalhou pelo Semiárido é a cisterna de placas de 16 mil litros, difundida pela Articulação Semiárido Brasileiro, a ASA. É um reservatório cilíndrico, coberto e semienterrado, com 3,5 metros de diâmetro e 1,80 metro de altura, feito de placas de cimento moldadas no próprio local. Recebe a água do telhado da casa pela calha. Segundo a ASA, o método de construção foi desenvolvido e aprimorado ao longo de décadas pela própria articulação e pelas famílias do Semiárido, e a cartilha ensina qualquer pessoa a construir a sua.

Cuidar da água guardada
Uma cisterna só serve se a água continuar boa. A cartilha da ASA lista os cuidados principais: descartar a água das primeiras chuvas, manter a cisterna sempre bem tampada e retirar a água sempre pela bomba manual, sem mergulhar baldes. O ladrão, a saída do excesso, fica coberto por tela ou mosquiteiro para impedir a entrada de bichos e sujeira. Uma vez por ano, a cisterna é limpa por dentro, com água sanitária ou cloro, numa tarefa feita em dupla, por segurança.
Para beber, além desses cuidados, a água deve ser filtrada e tratada, por exemplo com cloro na dose indicada pelos agentes de saúde, ou fervida. A Embrapa recomenda também um filtro doméstico. Em muitas comunidades, uma segunda cisterna, maior, guarda água para a produção: horta, criação e pomar.
Você sabia?
A Embrapa Semiárido calcula a água de que uma família precisa multiplicando o número de pessoas, o consumo diário de cada uma e o número de dias até as chuvas voltarem. Para beber e cozinhar, a tabela usada pela Embrapa indica de 14 a 28 litros por pessoa por dia.
Na prática
Faça a conta da sua reserva:
- Multiplique as pessoas da casa por 20 litros por dia, para beber e cozinhar.
- Multiplique pelo número de dias que você gostaria de ter de reserva.
- Compare com o que o seu telhado colhe, usando a conta do capítulo anterior.
Fontes
- Brito, L. T. L.; Porto, E. R. Cisterna rural: água para o consumo humano. Embrapa Semiárido, 1999.
- Articulação Semiárido Brasileiro (ASA). Cisterna de placas: passo a passo da construção. asabrasil.org.br, 2021.
Teste rápido
1 de 3O que fazer com a água das primeiras chuvas?
As águas cinzas
Voz gerada por IA.
A água que sai da pia, do chuveiro, do tanque e da máquina de lavar não precisa virar esgoto misturado. Ela é a água cinza, e pode ser tratada de forma simples, com plantas, perto de onde é gerada. Neste capítulo você vai ver como fazer isso com segurança, do círculo de bananeiras ao jardim filtrante da Embrapa.
O que é a água cinza
Segundo a cartilha Jardim filtrante no tratamento do esgoto, feita pelo Senar de São Paulo em parceria com a Embrapa Instrumentação, a água cinza corresponde a cerca de 80% do esgoto de uma casa. Ela tem restos de comida, gordura, sabão, detergente e outros produtos de limpeza, mas pouca quantidade de micróbios que causam doenças. Por isso, pode ser tratada por sistemas bem simples. A água negra, a do vaso sanitário, é diferente: tem muitos micróbios e precisa de outro caminho, que você verá no próximo capítulo.
Regras para reusar
A cartilha é clara sobre os cuidados. A água cinza, mesmo tratada, deve ser aplicada direto no solo, em sulcos fechados ou por gotejamento, sem entrar em contato com as partes da planta que a gente come. E nunca deve ser usada para os animais beberem. Antes de qualquer reúso na lavoura, o recomendável é fazer uma análise da água. Ela também é pobre em nutrientes: funciona como uma irrigação comum, não como adubo.

O círculo de bananeiras
O jeito mais simples, muito usado na permacultura, é o círculo de bananeiras: uma vala redonda, funda, cheia de galhos e palha, com bananeiras, mamoeiros, taiobas e outras plantas de folha larga plantadas em volta. A água cinza chega por um cano, passa antes por uma caixa de gordura, e é absorvida pela palha, pela terra e pelas raízes. As plantas bebem a água e transpiram pelas folhas. O círculo dá banana e não tem cheiro quando é bem feito e bem coberto.
O jardim filtrante
A Embrapa Instrumentação estuda desde 2011 o jardim filtrante, um pequeno brejo construído. A água cinza passa por uma caixa de gordura e entra num tanque impermeabilizado, cheio de brita e areia grossa, onde crescem plantas de brejo como papiro, lírio-do-brejo, taboa e helicônia. Os micróbios que vivem na areia, na brita e nas raízes fazem o tratamento. A regra de tamanho é de 2 metros quadrados por morador: para uma casa de até cinco pessoas, o jardim mede 5 metros de comprimento, 2 de largura e meio metro de fundo. A água que sai pode irrigar lavouras e lavar pisos e máquinas.

Você sabia?
No jardim filtrante, as plantas fazem mais do que enfeitar: levam oxigênio até as raízes e criam ali pequenos ambientes onde vivem os micróbios que limpam a água. As podas podem ir para a compostagem ou virar mudas.
Na prática
Olhe para a sua água cinza:
- Descubra se a água da pia e do chuveiro vai junto com a do vaso ou separada.
- Troque produtos de limpeza fortes por sabões mais simples, se pensa em reusar a água.
- Escolha um sistema: caixa de gordura com círculo de bananeiras ou jardim filtrante.
Fontes
- Senar-SP; Embrapa Instrumentação. Jardim filtrante no tratamento do esgoto. Senar-SP / Embrapa Instrumentação, 2025.
Teste rápido
1 de 3Como aplicar a água cinza tratada na horta?
O esgoto do vaso
Voz gerada por IA.
O esgoto do vaso sanitário, a água negra, é o mais perigoso da casa: carrega muitos micróbios que causam doenças. Onde não há rede de esgoto, muitas casas ainda usam a fossa negra, um buraco no chão que contamina a terra e a água dos poços. Neste capítulo você vai conhecer duas alternativas seguras e baratas: a fossa séptica biodigestora da Embrapa e a bacia de evapotranspiração.
A fossa séptica biodigestora
Criada pelo pesquisador Antonio Pereira de Novaes, da Embrapa Instrumentação, e lançada em 2001, a fossa séptica biodigestora já tem cerca de 12 mil unidades instaladas nas cinco regiões do Brasil. Ela trata somente o esgoto do vaso sanitário. São no mínimo três caixas d'água de mil litros, enterradas e ligadas por canos, para uma casa de até cinco pessoas. As duas primeiras são os módulos de fermentação, onde bactérias digerem o esgoto sem oxigênio. A terceira é a caixa coletora, que guarda o líquido já tratado.

O segredo está no esterco. Uma vez por mês, coloca-se uma mistura de 5 litros de esterco de vaca fresco com 5 litros de água. O esterco dos ruminantes traz bactérias que aceleram o tratamento e reduzem o cheiro. O sistema funciona sem energia elétrica. O líquido que sai é um adubo, com nitrogênio, fósforo e potássio, e pode ser usado no solo de frutíferas, capineiras e outras plantas que não são comidas cruas. Nunca em hortaliças, nunca por aspersão, e sempre com luvas e sapatos fechados.
A bacia de evapotranspiração
A bacia de evapotranspiração, a BET, também chamada de fossa de bananeiras, vem da permacultura, e você já a viu de passagem no curso Um lugar que se sustenta. Agora, os detalhes. É um tanque impermeável, sem saída nenhuma, que recebe só a água negra. No fundo fica uma câmara feita de pneus e entulho, onde o esgoto fermenta. Por cima vêm camadas de brita, areia e terra, plantadas com bananeiras, mamoeiros, taiobas e outras plantas de folha larga. A água sobe pelas camadas, chega às raízes e sai do sistema só como vapor, pelas folhas. Os micróbios ficam presos dentro da bacia fechada.

Pela prática de quem constrói, 2 metros cúbicos de bacia por morador funcionam bem: 2 metros de largura, 1 de fundo e 1 de comprimento para cada pessoa da casa. A bacia deve ficar virada para o norte, sem sombra, e a cobertura de folhas secas por cima precisa estar sempre completa, para a chuva não entrar. Nas cidades, consulte a prefeitura antes de construir.
Você sabia?
A fossa séptica biodigestora e o clorador Embrapa, os dois criados por Antonio Pereira de Novaes, ganharam o Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social em 2003.
Na prática
Conheça o esgoto da sua casa:
- Descubra para onde vai o vaso: rede de esgoto, fossa séptica ou fossa negra.
- Se for fossa negra, veja a distância até o poço ou a nascente mais próxima.
- Converse com a família e os vizinhos sobre a fossa biodigestora ou a BET.
Fontes
- Silva, W. T. L.; Marmo, C. R.; Leonel, L. F. Memorial descritivo: montagem e operação da fossa séptica biodigestora. Embrapa Instrumentação, Documentos 65, 2017.
- Senar-SP; Embrapa Instrumentação. Jardim filtrante no tratamento do esgoto. Senar-SP / Embrapa Instrumentação, 2025.
- Embrapa Instrumentação. 20 anos do saneamento rural na Embrapa Instrumentação: do básico ao ambiental. Embrapa Instrumentação, Documentos 72, 2021.
- Vieira, I. BET: Bacia de Evapotranspiração. Secretaria da Saúde do Paraná (arquivo), 2010.
Teste rápido
1 de 3O que se coloca uma vez por mês na fossa biodigestora?
Um quintal que bebe a chuva
Voz gerada por IA.
Para fechar o curso, olhe de novo para o quintal. Calçada, telhado e chão batido fazem a chuva escorrer depressa para a rua, levando terra e causando enxurrada. Um quintal vivo faz o contrário: segura a água, deixa ela entrar no chão e alimenta o lençol freático. Neste capítulo, o jardim de chuva e outros jeitos de fazer o quintal beber a chuva.
O jardim de chuva
O jardim de chuva é um canteiro um pouco mais baixo que o entorno, que recebe a água do telhado, da calçada ou da rua. A Prefeitura de Belo Horizonte, que investe em jardins de chuva contra os alagamentos, explica que eles criam espaços de armazenamento que facilitam a infiltração no solo e ajudam na recarga do lençol freático. A água acumula, forma uma poça e vai entrando na terra aos poucos, enquanto as plantas e os micróbios do solo ajudam a limpar os poluentes. Também chamados de sistemas de biorretenção, eles reduzem alagamentos e criam espaços de biodiversidade.

Em casa, dá para fazer um pequeno: escolha um ponto baixo do quintal, longe das paredes da casa, para onde a água do telhado possa ser levada por uma calha ou um rego. Cave uma bacia rasa, afofe a terra do fundo, misture composto e plante espécies que aguentam ficar encharcadas por algumas horas e também secas, como capins nativos, lírios e helicônias. Um jardim bem feito seca em poucas horas depois da chuva, e por isso não vira criadouro de mosquito.
Outros jeitos de o quintal beber
O primeiro é cobrir o solo: terra coberta com palha, folhas ou plantas absorve a chuva como uma esponja, enquanto o chão nu forma uma casca e deixa a água escorrer. O segundo é trocar cimento por chão que respira: pisos de bloquinhos com grama no meio, cascalho ou caminhos de pedra deixam a água passar. O terceiro é plantar árvores: as copas seguram a chuva forte e as raízes abrem caminhos para a água entrar. E o quarto é levar a água do ladrão da cisterna para o jardim de chuva ou para o pomar, em vez da rua.
A casa inteira no ciclo da água
Agora você conhece o caminho de cada água. A tratada é para beber, cozinhar e tomar banho, sem desperdício. A da chuva pode ser guardada na cisterna ou entrar na terra pelo jardim de chuva. A cinza pode virar banana no círculo ou flores no jardim filtrante. A negra pode ser tratada na fossa biodigestora ou na BET. Em vez de um problema que vai para longe, a água vira parte do quintal.

Você sabia?
A Prefeitura de Belo Horizonte começou com três jardins de chuva como projetos-piloto, e licitou um projeto com outros 60 jardins na cidade.
Na prática
Faça o quintal beber a chuva:
- Observe uma chuva forte e veja por onde a água escorre e onde ela empoça.
- Cubra todo pedaço de terra nua com palha, folhas ou plantas.
- Escolha o lugar de um pequeno jardim de chuva, longe das paredes da casa.
Fontes
- Prefeitura de Belo Horizonte. PBH investe em Jardins de Chuva como estratégia de prevenção a alagamentos. prefeitura.pbh.gov.br, 2023.
Teste rápido
1 de 3O que faz um jardim de chuva?
Leia no app e ganhe folhas
No app, cada capítulo concluído vira folhas no seu jardim, e você pode ouvir tudo em áudio.
